Ensino de geografia a partir de práticas investigativas

A experiência educativa mostra como aliar Educação Ambiental e Geografia, por meio de pesquisas sobre a situação socioambiental tendo como locus os municípios de Cáceres e Pontes e Lacerda e permitiram construir com os estudantes reflexões e entendimentos sobre a relação homem e natureza, bem como os impactos ambientais causados pela sociedade e a influência que as condições socioeconômicas realizam sobre eles.

Por Denise Peralta Lemes

Ana Leticia de Oliveira

Sônia Mara Rogoski

julho de 2022
Esta experiência foi publicada no livro: Geografia no Século XXI - Volume 4/ Organização: Fabiane dos Santos Belo Horizonte - MG: Poisson, 2019. p. 185 -190. Acesso aberto.

Esta experiência foi publicada no livro: Geografia no Século XXI – Volume 4/ Organização: Fabiane dos Santos Belo Horizonte – MG: Poisson, 2019. p. 185 -190. Acesso aberto.

Considerações iniciais 

A educação ambiental tem sido um tema recorrente nas discussões acadêmicas e escolares recentes. Ela permite incorporar a perspectivas dos sujeitos sociais, além de viabilizar o estabelecimento de “uma prática pedagógica contextualizada e crítica, que explicita os problemas estruturais de nossa sociedade, as causas do baixo padrão qualitativo da vida que levamos e da utilização do patrimônio natural como uma mercadoria e uma externalidade em relação a nós” (LOUREIRO, 2004, p. 16). Uma das formas de realiza-la se dá através do estímulo às atividades de pesquisa e iniciação científica. Pedro Demo (2007) é um dos defensores do “educar pela pesquisa”, entende que ela permite uma participação ativa do estudante como sujeito em seu processo de aprendizagem. Isso permite um ensino mais dinâmico e pautado no entendimento do estudante como um agente ativo do processo educacional, tem-se buscado uma prática didática construída a partir da pesquisa. A partir desse entendimento, objetiva-se trazer aqui relato de experiência realizadas em educação ambiental através do ensino e iniciação científica em duas unidades do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), os campi Pontes e Lacerda – Fronteira Oeste e Cáceres – Prof. Olegário Baldo. Na ocasião foram realizadas atividades de ensino e pesquisa através de projetos de iniciação científica realizados com estudantes de cursos técnicos integrados ao ensino médio. Essas atividades partiram de problemáticas levantadas pelos próprios estudantes com questionamentos como: Como ocorre a interação entre homem e natureza? Como as diferentes realidades sociais interferem nessas relações? Como a sociedade reconhece o meio ambiente? A partir destes problemas levantados e do interesse demonstrado pelos estudantes sobre o meio ambiente, buscaram-se alternativas de um ensino de educação ambienta mais dinâmico e participativo. Isso foi o estímulo inicial para a proposição de projetos de pesquisa sobre as áreas sugeridas pelos estudantes nos municípios de Cáceres e Pontes e Lacerda, Mato Grosso, e que serão aqui apresentados.

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO AMBIENTE ESCOLAR

Desde 1960 o mundo tem observado com mais atenção às bruscas e intensas transformações que a sociedade tem realizado sobre o meio ambiente. A partir de então diversos pesquisadores e autores vem abordando a temática em suas pesquisas e publicações. O que iniciou a partir da preocupação econômica sobre o esgotamento dos recursos naturais, passou nos últimos anos, a olhar também para as consequências que os impactos ambientais realizam sobre a sociedade e vice-versa (DIAS, 1992).

A importância dessa discussão pode ser comprovada por sua consideração no Artigo 225 da Constituição Federal brasileira (BRASIL, 1988) onde determina-se o direito a todos os cidadãos a um “meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. O mesmo artigo defende a promoção da “educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”. Isso evidencia umas das principais abordagens levantadas nos estudos recentes, o papel da educação no processo de compreensão e atuação sobre as questões ambientais. Vê-se isso em Carvalho, Tomazello & Oliveira (2009, p. 14-15) quando afirmam que “a educação é um caminho reconhecido”, de maneira consensual, “como de grande significado na compreensão e na busca de soluções para os complexos e diversificados problemas relacionados com as alterações ambientais provocadas pelas atividades humanas”. Tristão (2004, p.48-49) chama atenção à complexidade do entendimento da educação ambiental no contexto da educação escolar. […] a educação está diretamente relacionada com a produção de sentidos e de valores. Mas, por exemplo, a formação de valores sustentáveis não depende só da escola, mas de um conjunto de ações sociais, políticas, econômicas e ambientais em direção a uma sociedade mais justa, econômica e ecologicamente sustentável. Essa concepção combate as abordagens não integradoras que tendem a velar as dualidades e negar o caos.

A educação ambiental não questiona apenas a degradação ambiental, mas a degradação social, avaliando quais são suas verdadeiras causas. (TRISTÃO, 2004, p.48-49) Geografia no Século XXI – Volume 4 187 Sua preocupação demostra a importância do entendimento da educação ambiental em seu contexto social. Esse pensamento é corroborado por Dickmann (2010, p.15) que defende como um conjunto de práticas para além da defesa do meio ambiente, mas sim “a possibilidade de se construir uma práxis socioambiental, comprometendo todos os envolvidos a uma nova postura ética, social, cultural, econômica, histórica e ecológica”. A partir dessas premissas, reconhece-se a necessidade de uma aplicação prática no ensino através de metodologias que viabilizem atender todas as demandas e possibilidades existentes nos processos de aprendizagem. Ou seja, faz-se necessário que os professores envolvidos compreendam a relevância e complexidade da educação ambiental no âmbito escolar e social e que busquem metodologias ativas, participativas e reflexivas.

PRÁTICAS DE ENSINO E PESQUISA REALIZADAS EM ÂMBITO ESCOLAR

Partindo do entendimento difundido por Loureiro (2004, p. 18) de que “educar é saber ‘ler’ o mundo, conhecê-lo para transformá-lo e, ao transformá-lo, conhecê-lo” e que “tal movimento envolve metodologias participativas e dialógicas associadas a conteúdos transmitidos, assimilados e reconstruídos coletivamente”, procurou-se desenvolver em sala de aula atividades consonantes com essa concepção. Essas consistiram em atividades de iniciação científica e pesquisa que foram realizadas junto a estudantes do ensino médio em dois municípios do estado de Mato Grosso e são aqui retratadas.

  • EXPERIÊNCIA EM CÁCERES-MT

Em 2016 uma demanda dos estudantes de Ensino Médio do IFMT Campus Cáceres – Prof. Olegário Baldo trouxe a indagação do uso dos potenciais naturais do município e os impactos ambientais realizados pela sociedade. Mais especificamente, os estudantes questionaram a existência de um córrego, uma vez que o viam como um “valão” de esgoto em meio à área urbana do município. Isso permitiu que se propusesse um projeto de pesquisa e intervenção em educação ambiental sobre as relações homem-natureza e proposição de um projeto de arborização da área (FREITAS et. al, 2016). Iniciaram-se os trabalhos com a leitura de materiais sobre as relações homem natureza e arborização urbana.

Posteriormente foram realizadas visitas técnicas ao local, entrevistas com os moradores das proximidades e, por fim, a elaboração do plano para recuperação e arborização da área. Essas atividades vão ao encontro do entendimento de (TRISTÃO, 2004, p.53), quando afirma que “ao valorizar as práticas de interação com a natureza, transpõem os muros das escolas e vivenciam outros contextos de aprendizagem que transgridam o espaço/tempo da escola”, com isso “criam-se estratégias de compreensão da realidade complexa, aberta à imprevisibilidade e à interdependência e da racionalidade ambiental”.

Com a atividade os estudantes tiveram a oportunidade de observar os impactos realizados pela sociedade sobre o Córrego Sangradouro, afluente do Rio Paraguai, e sobre o fundamental recurso água (Figura 1). Igualmente surpreenderam-se ao observar vida silvestre no local com mamíferos, répteis e aves (Figura 2).

Figura 1 e Figura 2 – As contradições do Córrego Sangradouro Fonte: FREITAS et. al. (2016). Geografia no Século XXI – Volume 4.

As imagens apresentadas foram feitas pelos estudantes e demonstram que suas atenções se voltaram para as contradições da vida desenvolvendo-se em um ambiente degradado. Esse olhar é importante para compreender as visões construídas pelos estudantes. Também reconheceram a percepção que a população local tem sobre esse espaço, identificando que a maior parte das pessoas não reconhecem o córrego como uma estrutura natural. O que pode ser explicado por dois motivos; os incômodos provocados pelo mau odor e a presença de insetos, que os moradores relacionam com a presença do esgoto; e a canalização que modificou a configuração do córrego transformando-o em uma vala. Os estudantes ainda identificaram que muitos moradores afirmam contribuir para o meio ambiente limpando as margens, porém não reconhecem a necessidade da manutenção da mata ciliar no local. Ao ter esse conhecimento, um dos estudantes refletiu sobre as concepções errôneas que a sociedade cria em torno da natureza e das intervenções a favor do meio ambiente. Ao final os estudantes propuseram a criação de um pequeno parque urbano no local, que englobaria a revitalização e arborização das margens e instalação de uma área de lazer com pista de caminhada e bancos. No entanto, eles mesmos chegaram ao entendimento que a realização seria muito difícil senão impossível no contexto atual, uma vez que não bastaria atuar somente de forma pontual. Necessitaria da realização de um grande programa de saneamento básico no município para cessar a emissão de esgoto doméstico no córrego, além de uma recuperação em toda sua extensão.

  • EXPERIÊNCIA EM PONTES E LACERDA-MT

Entre os anos de 2016 e 2017 foram realizadas junto ao Campus Pontes e Lacerda do IFMT diversas ações ligadas ao meio ambiente e educação ambiental. Um desses foi o projeto “Percepção ambiental dos moradores do bairro Morada da Serra, Pontes e Lacerda-MT” cujos objetivos foram “demonstrar a importância do envolvimento da população juntamente aos órgãos competentes para o cumprimento da legislação ambiental” e “conscientizar a população na percepção do descaso que acontece em relação ao ambiente onde moram e orientar a sociedade na conservação das áreas ao seu redor” (LEMES, VIEIRA & DAN, 2017, p.2).

O projeto foi realizado com estudantes do curso Técnico em Meio Ambiente Integrado ao Ensino Médio. A realização do projeto iniciou com o levantamento de problemáticas pelos estudantes. Emergiram assim questionamentos como: Qual a situação socioambiental do bairro Morada da Serra? Como as pessoas percebem o meio ambiente? Como suas vivências interferem no meio ambiente? Quais os principais impactos? Como as condições socioeconômicas interferem as relações com o meio ambiente?

Primeiramente os estudantes realizaram estudos teóricos sobre as relações entre sociedade e natureza e impactos ambientais; pesquisaram ainda em materiais já publicados a realidade do município em estudo. Posteriormente elaboraram um questionário a ser aplicado para a população e vivenciaram estudos in loco. Os resultados encontrados estão ligados à coleta de dados e percepção dos estudantes sobre o fenômeno. Observaram assim que apesar de ser um bairro novo no município, possui graves problemas socioambientais relacionados à invasão de áreas (inclusive de preservação ambiental), irregularidades nas construções, problemas de saneamento básico e desigualdade social.

As Figuras 3 e 4 demonstram o olhar dos estudantes sobre o objeto de estudo. Geografia no Século XXI – Volume 4 189 Figura 3 e Figura 4 – Situação socioambiental do bairro Morada da Serra. Fonte: LEMES, VIEIRA & DAN (2016).

Ao término da pesquisa, os estudantes envolvidos identificaram que a percepção ambiental da população local é afetada diretamente por suas condições socioeconômicas. Muitos reconhecem a importância do meio ambiente, mas não compreendem suas ações como impactantes. Por vezes, também justificam más atitudes pela falta de infraestrutura, serviços públicos e condição econômica deficitária. No entanto, o maior ganho percebido foi às novas concepções de mundo e entendimento holístico da atuação humana sobre o meio ambiente. Alguns estudantes reconheceram que não compreendiam as relações socioeconômicas e ambientais de maneira interligada. Concluíram por fim que não se pode pensar a resolução dos problemas ambientais e mesmo a gestão ambiental, sem considerar a sociedade como agente ativo e fundamental no processo.

Considerações finais 

Entende-se que as atividades realizadas nos dois campus do IFMT não foram ações isoladas e desenvolveram-se juntamente com outras atividades destinadas a ampliação da percepção socioambiental dos estudantes e reconhecimento da realidade onde vivem. No entanto, não se considera essas como concluídas ou findadas, uma vez que se constituíram como o início de discussões e pesquisas que continuaram a ser desenvolvidas. Percebeu-se com elas, como é relevante a utilização da pesquisa científica como prática da educação ambiental. Isso porque, ela permite um processo de ensino-aprendizagem mais dinâmico onde o estudante torna-se ator ativo questionando, investigando e refletindo sobre sua realidade. Sem dúvida a educação ambiental é fundamental, não apenas na educação escolar formal. Mas, também na formação de cidadãos reflexivos, críticos e conscientes do seu papel na sociedade em que vive, bem como sobre o meio em que habita.

REFERÊNCIAS

[1] Brasil. Constituição Federal. Brasília, DF, 05 out. 1988. Acesso em: 30 ago. 2018.

[2] Carvalho, Luiz Marcelo de; Tomazello, Maria Guiomar Carneiro; Oliveira, Haydée Torres de. Pesquisa em educação ambiental: panorama da produção brasileira e alguns de seus dilemas. Cad. Cedes, Campinas, vol. 29, n. 77, p. 13-27, jan./abr. 2009. Disponível em: . Acesso em: 31 ago 2018.

[3] Demo, Pedro. Educar pela pesquisa. 8. ed. Campinas: Autores Associados, 2007.

[4] Dias, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia, 1992.

[5] Dickmann, Ivo. Contribuições do pensamento pedagógico de Paulo Freire para a educação socioambiental a partir da obra Pedagogia da Autonomia. 2010. 165 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Pós-graduação em Educação, Setor de Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2010.

[6] Freitas, Hanna do Nascimento; et al. Projeto de Arborização para melhoria da qualidade de vida na área urbana de Cáceres-MT. Anais da V Mostra de Iniciação Científica no Pantanal. Cáceres – MT: Unemat/IFMT, 2016.

[7] Lemes, Denise Peralta; Vieira, Linda Ines Comim; DAN, Flaviana Galossi. Percepção ambiental dos moradores do Bairro Morada Da Serra, Pontes e Lacerda-MT. Pontes e Lacerda – MT: IFMT, 2017. (Relatório de projeto) Geografia no Século XXI – Volume 4 190

[8] Loureiro, Carlos Frederico B. Educar, participar e transformar em educação ambiental. Revista brasileira de educação ambiental, Brasília, n. 0, p. 13-20, nov. 2004. Disponível em: . Acesso em: 03 set. 2018.

[9] Tristão, Martha. Saberes e fazeres da educação ambiental no cotidiano escolar. Revista brasileira de educação ambiental, Brasília, n. 0, p. 47-55, nov. 2004. Disponível em: . Acesso em: 03 set. 2018.

Experiência publicada no livro: Geografia no Século XXI – Volume 4/ Organização: Fabiane dos Santos Belo Horizonte – MG: Poisson, 2019. p. 185 -190. Acesso aberto.

A educação ambiental, entendida de forma crítica e sob um enfoque de complexidade, permite uma ampla gama de atividade relacionadas as relações da sociedade com a natureza. Em âmbito escolar, se faz necessário que sua abordagem seja dinâmica, construtiva e participativa, o que pode ser obtido através de práticas de pesquisa e iniciação científica. A partir desse entendimento busca-se aqui relatar práticas de ensino e pesquisa realizadas com estudantes de ensino médio em Mato Grosso. As atividades consistiram em pesquisas sobre a situação socioambiental tendo como locus os municípios de Cáceres e Pontes e Lacerda e permitiram construir com os estudantes reflexões e entendimentos sobre a relação homem e natureza, bem como os impactos ambientais causados pela sociedade e a influência que as condições socioeconômicas realizam sobre eles.