Ensino de Histórias e Culturas Indígenas na Educação Infantil
Relato de experiência educativa sobre a abordagem da literatura indígena em vivências dentro de escolas públicas e privadas, na construção de diálogos com crianças, estudantes e educadores.
Carina Oliveira - UFRJ
Acervo Carina Oliveira
O estudo das contribuições das matrizes indígenas é obrigatório para o Ensino Fundamental, garantido no Brasil pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996). Embora essa obrigatoriedade não se estenda para a Educação Infantil, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (CNE-CEB, Resolução nº 5, 2009) há necessidade de apropriação das crianças de 0 a 6 anos acerca das contribuições histórico-culturais dos povos indígenas.
“Entendemos que são muitas as manifestações culturais dos mais de 305 povos indígenas brasileiros (IBGE, 2010), com suas formas próprias de viver e de se expressar.”
A partir destes documentos, a escola seria a instituição que garantiria o acesso das crianças à(s) cultura(s) indígena(s). Entendemos que são muitas as manifestações culturais dos mais de 305 povos indígenas brasileiros (IBGE, 2010), com suas formas próprias de viver e de se expressar. A literatura indígena enquanto manifestação cultural dos povos é uma das portas de entrada às diversas culturas, é aquela que traz o protagonismo dos sujeitos indígenas enquanto narradores. Esses escritores, esses sujeitos indígenas (também) retomam a história oficial do Brasil e dos estereótipos construídos pelos colonizadores, (re)construindo olhares.
A partir destas considerações, desde 2018 tenho visitado escolas públicas e privadas para dialogar com crianças, alunos e educadores acerca da literatura indígena. Destaco aqui duas breves experiências:
1- Diálogo com educadoras em uma biblioteca estadual localizada no Rio de Janeiro (RJ). A proposta foi (também) uma formação continuada. Comecei a palestra me apresentando, falando sobre o meu lugar (ou muitos lugares). Em seguida, tratei sobre a literatura indígena e sua importância enquanto protagonismo indígena, movimento político e formadora de consciências. Por conseguinte, distribuí algumas literaturas indígenas para que as educadoras pudessem observar, e, a partir de uma troca de saberes, pensassem como inseri-las no cotidiano escolar.

Carina Oliveira em palestra sobre ensino de história e culturas indígenas por meio da literatura indígena, dentro de uma biblioteca no Rio de Janeiro. Acervo da autora
2- Em um colégio federal também no Rio de Janeiro (RJ) dialoguei com crianças do 1º ano do Ensino Fundamental. Diferentemente de outras escolas que visitei, as crianças não aparentaram esperar a visita de um “índio estereotipado”. A escola, a literatura, as famílias e vivências podem ter possibilitado construções de olhares diferentes das narrativas colonizadoras.
As duas experiências possibilitaram a troca de saberes e ampliação destes. A experiência de escuta dos outros sujeitos e compreender suas narrativas acerca da literatura e das culturas indígenas proporcionaram momentos também de formação para mim, enquanto pesquisadora.
Carina Oliveira é pataxó, ativista, pedagoga, mestranda em educação pela UFRJ e pesquisadora da Literatura Indígena brasileira.