Ensino de Histórias e Culturas Indígenas na Educação Infantil

Relato de experiência educativa sobre a abordagem da literatura indígena em vivências dentro de escolas públicas e privadas, na construção de diálogos com crianças, estudantes e educadores.

Carina Oliveira - UFRJ

agosto de 2020
Sala de apresentações de uma biblioteca, com um palco em que uma mulher está de pé proferindo uma palestra, com uma tela branca projetando slides.

Acervo Carina Oliveira

O estudo das contribuições das matrizes indígenas é obrigatório para o Ensino Fundamental, garantido no Brasil pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996). Embora essa obrigatoriedade não se estenda para a Educação Infantil, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (CNE-CEB, Resolução nº 5, 2009) há necessidade de apropriação das crianças de 0 a 6 anos acerca das contribuições histórico-culturais dos povos indígenas.

“Entendemos que são muitas as manifestações culturais dos mais de 305 povos indígenas brasileiros (IBGE, 2010), com suas formas próprias de viver e de se expressar.”

A partir destes documentos, a escola seria a instituição que garantiria o acesso das crianças à(s) cultura(s) indígena(s). Entendemos que são muitas as manifestações culturais dos mais de 305 povos indígenas brasileiros (IBGE, 2010), com suas formas próprias de viver e de se expressar. A literatura indígena enquanto manifestação cultural dos povos é uma das portas de entrada às diversas culturas, é aquela que traz o protagonismo dos sujeitos indígenas enquanto narradores. Esses escritores, esses sujeitos indígenas (também) retomam a história oficial do Brasil e dos estereótipos construídos pelos colonizadores, (re)construindo olhares.

A partir destas considerações, desde 2018 tenho visitado escolas públicas e privadas para dialogar com crianças, alunos e educadores acerca da literatura indígena. Destaco aqui duas breves experiências:

1- Diálogo com educadoras em uma biblioteca estadual localizada no Rio de Janeiro (RJ). A proposta foi (também) uma formação continuada. Comecei a palestra me apresentando, falando sobre o meu lugar (ou muitos lugares). Em seguida, tratei sobre a literatura indígena e sua importância enquanto protagonismo indígena, movimento político e formadora de consciências. Por conseguinte, distribuí algumas literaturas indígenas para que as educadoras pudessem observar, e, a partir de uma troca de saberes, pensassem como inseri-las no cotidiano escolar.

Carina Oliveira em palestra sobre ensino de história e culturas indígenas por meio da literatura indígena, dentro de uma biblioteca no Rio de Janeiro. Acervo da autora

2- Em um colégio federal também no Rio de Janeiro (RJ) dialoguei com crianças do 1º ano do Ensino Fundamental. Diferentemente de outras escolas que visitei, as crianças não aparentaram esperar a visita de um “índio estereotipado”. A escola, a literatura, as famílias e vivências podem ter possibilitado construções de olhares diferentes das narrativas colonizadoras.

As duas experiências possibilitaram a troca de saberes e ampliação destes. A experiência de escuta dos outros sujeitos e compreender suas narrativas acerca da literatura e das culturas indígenas proporcionaram momentos também de formação para mim, enquanto pesquisadora.

Carina Oliveira é pataxó, ativista, pedagoga, mestranda em educação pela UFRJ e pesquisadora da Literatura Indígena brasileira.