Cápsula do Tempo

UFU e UFTM participam de projeto que registra relatos no Triângulo Mineiro durante a pandemia

Valéria Moreira Rezende - UFU

Rogéria Isobe - UFTM

outubro de 2020

O Projeto Arquipélago de memórias: pandemia e vida cotidiana de professores/profissionais da educação, estudantes, pais/mães de alunos (famílias) é um projeto de extensão em rede nacional que reúne instituições de diferentes unidades federativas em todo país, para refletir sobre o histórico momento presente.

De um momento para outro tivemos que fazer uma pausa em nossas vidas. O cotidiano que conhecíamos, de repente precisou ser suspenso. A então conhecida correria do dia a dia foi substituída pelo isolamento social e a vida precisou ser reinventada, tanto no âmbito do trabalho, na vida privada, lazer, entre outros. O acesso à bares, casas de shows, passeios nos shoppings foram substituídos por uma rotina restrita ao domicílio. O permitido deixa de ser o possível e passa a se restringir ao o essencial: abastecimento nos supermercados, farmácias, postos de combustíveis, etc.

As famílias tiveram que reinventar também o seu cotidiano, cuja convivência é ampliada, assim como passa a ser ampliado também os afazeres domésticos e as preocupações com a garantia de condições favoráveis de subsistência. Muitas famílias, inclusive, passaram a conviver com a incerteza de ter o alimento para o sustento diário.

Neste período de pandemia, a paralisação das atividades presenciais, na maioria dos casos, não vem se traduzindo como uma paralisação das atividades educativas. As escolas necessitam responder aos imperativos da sociedade de aprendizagem. As famílias passaram a conviver com o ensino remoto. Com isso, professores e alunos tiveram que criar estratégias para transferir todo funcionamento da escola para dentro de casa. Essa determinação, por parte dos governos estaduais, implicou em uma série de situações indesejáveis, para todos os envolvidos: falta de conhecimento do aparato tecnológico, falta, ou instabilidade de acesso à internet, sobrecarga que muitas vezes chega à exaustão, tanto de professores como alunos, exposição excessiva à tela do computador, notebook e até mesmo celular, entre outros.

No contexto da pandemia, o isolamento social se torna uma necessidade com vistas à proteção da vida, ou aquilo que poderia ser chamado de “conservação do mundo” (ARENDT, 2009). E cabe às autoridades públicas garantir condições para que esse período de necessária reclusão possa ser cumprido.  A pandemia da COVID 19 impõe um redimensionamento da rotina diária, como aconteceu em períodos históricos anteriores: outras pandemias e também os períodos de guerra (HELLER, 1989). Ao mesmo tempo, o cotidiano é um compósito que reúne heterogeneidade, repetição, imediaticidade, ultrageneralização, economia, etc.

A partir do fenômeno causado pela COVID 19, que vivemos desde fevereiro/março de 2020 e sem perspectivas de término, o acervo de memórias dos sujeitos participantes do projeto pretende construir a cartografia da educação escolar e suas respectivas interligações com a vida cotidiana durante a pandemia.

O objetivo é produzir um acervo digital de relatos orais, dos mais distintos lugares do país, acerca da duração histórica presente com vistas à construção de uma “cápsula do tempo” como legado às gerações vindouras. Esse acervo somente será aberto para eventuais intervenções analíticas em 2025. Depois de aberta a cápsula, será mantido o anonimato daqueles que enviaram seus relatos. Essa cápsula do tempo não é material, mas simbólica que se materializa na virtualidade, uma vez que a coleta dos depoimentos está sendo por meio virtual.

O projeto reúne mais de 30 instituições federais do norte ao sul do país e conta com a colaboração de mais de 100 pesquisadores. No Triângulo Mineiro aderiram ao projeto duas instituições: Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) que participam do coletivo nacional, tendo como organização central a Universidade Federal de Goiás (UFG), com a coordenação da Profa. Dra. Valdeniza Maria Lopes da Barra.

A Universidade Federal de Uberlândia participa por meio do Observatório Educacional em Rede (OER) e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas, Formação e Práticas Educativas – GEPPOPE sob a coordenação da Profa. Dra. Valéria Moreira Rezende. Já a Universidade Federal do Triângulo Mineiro conta com a coordenação da Profa. Dra. Rogéria Isobe. Ao final do projeto as pesquisadoras pretendem fazer um levantamento e análise dos relatos específicos da nossa região.

O propósito de desenvolver um projeto de grande abrangência é perscrutar a diversidade cultural e a riqueza plural dos relatos, expressa na vida cotidiana de cada sujeito. Os impactos da pandemia na vida comum das pessoas que normalmente passariam desapercebidas é a oportunidade de dar visibilidade à vida ordinária que poderá ser, ao mesmo tempo, objeto de pesquisa e um legado para a vida futura.

O teor dos relatos não precisa ser somente em torno da vida escolar, mas a riqueza está expressamente em entrelaçar a fala dos sujeitos e o seu dia a dia da escola, família, trabalho, registrando os dissabores, descobertas e superações…

Nesse contexto, o projeto recebe também relato de crianças de todas as idades, que em razão da pandemia, estão afastadas do ambiente escolar. Para a criança, a escola é mais que um espaço aprendizagem, é também um lugar de socialização, de interação e de segurança, sobretudo para aquelas que estão em situação de vulnerabilidade social. Estar ausente da escola implica no comprometimento da qualidade de vida e que pode acarretar até mesmo distúrbios psicológicos e emocionais.

A criança tem a sua linguagem própria e expressa com muita naturalidade sentimentos de medo, insegurança, alegria, sonhos e expectativas. Seus relatos poderão contribuir, no futuro, para termos um olhar límpido deste atípico presente que estamos vivendo.

O relato feito pelos três segmentos – professores e profissionais da educação, alunos e familiares – é livre, por isso o projeto não trabalha com hipóteses. A liberdade de expressar sentimentos, desejos, angústias, incertezas, entre outros, formarão um conjunto de memórias que se completa por si mesmo e que servirá para que as gerações vindouras compreendam como vivemos esse momento ímpar causado pela pandemia.

O projeto conta com uma rede ampla de colaboração e ações de divulgação por parte das universidades, canais de comunicação, rede sociais entre outros. Também estão sendo produzidos vídeos como o da atriz Cida Mendes (Concessa) que cedeu sua imagem e trabalho para contribuir.  Concessa fala sobre a “cápsula do tempo”. Também os estados estão se organizando para fazerem a divulgação, como mostram os vídeos:

1- Mato Grosso do Sul, Bahia, Minas Gerais, Acre e Paraíba;

2- Goiás, Maranhão, Rondônia, São Paulo, Santa Catarina;

3- Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Mato Grosso.

Para participar é muito simples. Basta entrar no site do  Projeto Arquipélago de Memórias e deixar o seu relato no formato mensagem de voz através do WhatsApp. Cada participante pode enviar quantos relatos quiser, de até 5 minutos, contando suas experiências durante a pandemia. É importante estar atento para que nesse relato o participante não deixe de mencionar a cidade e o estado que mora e, principalmente, a região do Triângulo Mineiro.      

Contamos com a ampla divulgação da comunidade acadêmica – para juntos participarmos deste importante projeto – que marcará o nosso momento histórico na posteridade.

 

Referências

ARENDT, Hanna. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2009.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1989.

Projeto arquipélago de memórias disponível em: https://sites.google.com/ufg.br/arquipelagodememorias/in%C3%ADcio?authuser=0. Acesso em 17/10/2010

Valéria Moreira Rezende é professora doutora do Curso de Pedagogia do ICH, campus Pontal, da Universidade Federal de Uberlândia. Líder do Grupo de Pesquisa em Política, Formação Docente e Práticas Educativas (GEPPOPE)  .

Rogéria Isobe é professora doutora do Departamento de Educação do Instituto de Educação, Letras, Artes, Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.