O caminho do fogo!

Por que manter a Floresta Amazônica em pé é a melhor alternativa para o Brasil?

Gabriel Pereira Lopes – IFTM

Iara Vieira Guimarães – UFU

novembro de 2019

Floresta Amazônica. Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/brasil-amaz%C3%B4nia-floresta- equatorial-400278/

Em 2019, o fogo se alastrou pelo Brasil e também por terras internacionais. Ele foi o próprio combustível para diversas discussões de cunho político-ambiental. No caminho das chamas, a Amazônia, maior floresta tropical do mundo e que tem a maior biodiversidade, não escapou.

Na Amazônia, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de janeiro a agosto de 2019, as queimadas aumentaram 83% (em comparação com o mesmo período de 2018). Um número sem precedentes nos últimos sete anos.

Conforme informação divulgada pela Polícia Federal, empresários, fazendeiros e produtores rurais do sudoeste do Pará, entre os dias 10 e 11 de agosto, organizaram uma série de queimadas criminosas em várias Unidades de Conservação (UC’s), que são áreas ambientais protegidas. O incêndio orquestrado foi combinado por grupos de mensagens pelo Whatsapp. Tal feito, infelizmente, ficou conhecido como o “Dia do Fogo”, quando os focos de incêndio aumentaram em 300% na supracitada região amazonense.

Na época, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, declarou que o “o tempo seco, vento e calor fizeram com que os incêndios aumentassem muito em todo o País”. Nesse sentido, para ele, as queimadas não foram criminosas, mas, sim, naturais, sem interferência humana. De fato, Salles é advogado e administrador, e nada tem a ver com a magistratura do cargo que ocupa. Além disso, declarações desse tipo serviram para colocar, ainda mais, em xeque a preocupação do governo com o meio ambiente.

Desenvolvemos aqui uma experiência didática para trabalhar esse tema com os jovens estudantes. Sabemos o quão importante é a compreensão sobre o jogo político, os interesses econômicos e as ações práticas da sociedade civil sobre o meio ambiente. Fazer educação ambiental na escola é trabalhar de forma crítica, com dados científicos e com informações de qualidade para que se possa formar estudantes mais atentos às questões ambientais contemporâneas.

As queimadas na Amazônia foram naturais, causadas pelo clima seco, durante o mês de agosto?

Queimadas em Tocantins, Brasil. Fonte:<https://portal.to.gov.br/noticia/2016/6/30/governo-lanca-campanha-de-sensibilizacao-contra-queimadas-florestais-no-cerrado-e-areas-urbanas/>

A Amazônia é uma floresta pluvial tropical, com clima equatorial, o que significa que o bioma é sempre quente e úmido o ano inteiro. A precipitação média atinge 2300 mm/ano. As chuvas fortes ocorrem entre novembro e março. O período de maio a setembro corresponde à estação seca, entretanto, o volume de chuvas ainda é grande, em torno de 900 mm. Para se ter uma ideia, diariamente, as árvores da Amazônia liberam para a atmosfera, sob a forma de vapor d’água, cerca de 20 trilhões de litros de água, valor maior que a vazão do Rio Amazonas no Oceano Atlântico, que é de 17 trilhões de litros por dia. Assim, a água na Amazônia é um recurso bastante abundante, o que torna impossível, mesmo no período de seca, surgir um incêndio natural no bioma, diferentemente do que acontece com o Cerrado, onde os meses de maio a setembro são marcados por um forte período de estiagem. Nesse caso, a vegetação seca torna-se um produto altamente inflamável para qualquer fonte de calor concentrado. Contudo, as plantas do Cerrado são adaptadas para este tipo de situação, elas conseguem sobreviver após as queimadas, pois o fogo natural é um elemento evolutivo do bioma, diferentemente das espécies vegetais da Amazônia.

A Floresta Amazônica vale mais viva ou morta?

Floresta Amazônica. Fonte: <https://unsplash.com/photos/8fLSrccoox0>

Você pode até não perceber, mas, todos os dias, somos agraciados por diversos benefícios provenientes da natureza (dos ecossistemas), seja de forma direta ou indireta, como água fresca, alimentos, combustível, regulação climática e reciclagem de nutrientes, dentre inúmeros bens. A esses benefícios damos o nome de “serviços ambientais ou ecossistêmicos”. Sabe quanto pagamos por eles? Nada, eles são gratuitos! Segundo dados do Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil (2018), apenas no nosso País, a estimativa é de que a polinização realizada por insetos polinizadores, principalmente as abelhas, vale 43 bilhões de reais por ano na produção de alimentos. Valor economizado pelo produtor e, consequentemente, no final, pelo consumidor.

Tratando-se da Amazônia, podemos dizer que é incorreto nomeá-la como “pulmão do mundo”, pois praticamente todo o oxigênio (O2) que a Floresta Amazônica produz ela também consome para se sustentar. Contudo, a floresta nos fornece diversos serviços ambientais imensuráveis, como o sequestro de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, medicamentos, materiais de construção e lazer. Além desses, grande parte da regulação climática da América do Sul depende da Amazônia, uma vez que os 20 trilhões de litros de água diários em estado de vapor são transportados para diversos países. Nessa questão, o Brasil é um dos gigantes da agropecuária que menos gasta com irrigação mecanizada, apenas 5%, pois 95% da produção é abastecida pelas chuvas.

Enquanto o desmatamento na Amazônia cresce – o bioma já perdeu 20% da sua cobertura original – pesquisadores alertam para o risco da maior floresta tropical do mundo entrar em colapso, num processo denominado de savanização. Nesse caso, as árvores altas, de folhas largas e dossel fechado da Floresta Amazônica, bem como as regiões úmidas, seriam substituídas por áreas abertas, compostas por árvores de menor porte e esparsas. Tal ambiente se tornaria similar ao Cerrado, que é um tipo de bioma savânico, por isso o termo “savanização”. Diante dessa preocupação, um grupo de cientistas de várias nacionalidades, liderado pelo pesquisador brasileiro David Montenegro Lapola, da Unicamp, publicou um artigo na respeitada revista científica PNAS, em 2018, apontando medidas mitigadoras para o desmatamento na Amazônia, as quais também devem abranger, além do Brasil, as potências mundiais. Segundo o estudo, após 30 anos do processo de savanização, os prejuízos estimados seriam entre 957 bilhões a 3,5 trilhões de dólares.

Problematização

Será que é possível calcular, em termos monetários, o valor ambiental prestado pela Floresta Amazônica a nosso favor? Ela vale mais preservada ou convertida em pastagens e campos de agricultura ou em áreas de mineração, cujo lucro financeiro fica retido a grandes empresários, fazendeiros e produtores rurais?

Proposta de atividade

Para trabalhar essa problemática com os jovens estudantes, sugerimos três textos jornalísticos que tratam da questão. Para isso, pode-se dividir a turma em três grupos. Cada grupo deve ler um dos textos sugeridos, discuti-lo com os colegas e, posteriormente, apresentar para a turma os conteúdos analisados. Clique para acessar:

Texto 1: Como o fogo destrói a Amazônia, a maior floresta do mundo. Giovana Girardi, O Estado de São Paulo, 2019.

Texto 2: Preservar a Amazônia é mais lucrativo do que desmatar. Ricardo Abromovay, Folha de São Paulo,  2019.

Texto 3: Açaí, néctar nutritivo da Amazônia, fascina o mundo e ajuda a proteger a floresta. Haroldo Castro, Revista Época, 2016.

Explore em sala de aula o texto, as imagens e os infográficos. O material jornalístico sugerido pode contribuir para enriquecer a formação dos alunos e fomentar a educação ambiental dos jovens, de forma interdisciplinar, reflexiva e mobilizadora.