“O ensino de História enfrenta um momento muito difícil”

Em entrevista, Prof. Dr. Marcos Antônio da Silva, da Universidade de São Paulo, reflete sobre sua trajetória e a situação do ensino e da pesquisa no Brasil

Por Marcos Vinícius Reis – UFU

novembro de 2019

Foi em meio às tensões que caracterizaram o período da ditadura civil-militar brasileira que o professor e pesquisador Marcos Antônio da Silva iniciou sua trajetória acadêmica. Nascido em Natal, mudou-se para São Paulo em 1970 e, dois anos depois, ingressou no curso de História da Universidade de São Paulo. A graduação, que se deu entre os governos Médici e Geisel, foi concluída em 1976. Silva rememora as experiências daquela época, enfatizando como o medo e a luta se faziam presentes entre os acadêmicos: “Especialmente no começo da minha graduação, havia um clima muito estranho, de medo, na universidade. Um medo justificável, porque pessoas desapareciam, eram presas arbitrariamente, torturadas. Havia gente que morria. Ao mesmo tempo, mais para o fim, começaram a surgir manifestações expressivas contra a ditadura.”

As vivências decorrentes do período ditatorial, a atuação no campo da História (à graduação se seguiram um mestrado e um doutorado, ambos em História Social, e um pós-doutorado) e o interesse pelas Artes Plásticas (materializado, também, em uma formação universitária, concluída em 1999) refletiram-se no seu trabalho. Recentemente, Silva publicou o livro “Rir das ditaduras: os dentes de Henfil” (Intermeios, 2018), no qual discorre sobre a obra do cartunista mineiro Henrique de Souza Filho, o Henfil, conhecido por questionar a conjuntura social e política do seu tempo por meio de seus traços. “Eu considerava o Henfil uma figura muito marcante da crítica à ditadura”, diz o professor. “Escrevi sobre ele já na década de 1990. Ele já tinha morrido. Era tratado como um ícone, portanto, do período da ditadura, um clássico. Eu senti um problema. Por um lado, claro, o Henfil merece esse tratamento. Por outro, tratá-lo como um clássico meio que imobiliza o furor, a força, a agressividade da produção. Então eu quis pensar sobre ele com esse furor, essa agressividade.”

O professor Marcos Antônio da Silva. Foto: Arquivo pessoal

Atualmente, além da docência na graduação e pós-graduação, Silva se dedica à coordenação de dois projetos de pesquisa. O primeiro, “História e Poéticas”, investiga linguagens artísticas, as quais o professor destaca terem “uma dimensão muito importante no sentido de educar a sensibilidade de todos, estabelecer trocas sociais entre diferentes modalidades de sensibilidade. A sensibilidade artística é crítica. Ela convida à reflexão, ao contrário do senso comum e da ideologia”. Os trabalhos sob orientação de Silva tratam de áreas e linguagens como histórias em quadrinhos, charges, cinema e literatura. Já o projeto de pesquisa “Historiografia e Memória” é, segundo ele, “um trabalho básico para diferentes campos do conhecimento histórico”. A Historiografia propõe uma reflexão crítica sobre o que os historiadores produzem, “uma espécie de História da História”, e a Memória é necessária para se pensar sobre patrimônio e documentação. “Sem esses universos, a pesquisa histórica fica imobilizada”, diz Silva.

Lançando um olhar para o Brasil de hoje e os rumos do ensino e da pesquisa, o professor aponta para a existência de um quadro de perseguição e ataques às escolas e universidades, que sofrem um processo de criminalização. “É claro que existem escolas e professores que enfrentam e procuram superar esse quadro. Mas não sou otimista a ponto de pensar que os opositores e enfrentadores constituem maioria. Penso que nós estamos em uma situação difícil em que há uma maioria assustada e uma parcela importante acomodada”, diz. Segundo Silva, o ensino de História é tratado, nesse contexto, como inimigo do governo, cujos membros procuram desmoralizar professores e historiadores: “Declaram que o ensinado é errado e colocam versões absolutamente sem fundamento em relação à ditadura e a outros temas da História do Brasil, como a escravidão, a propriedade da terra e as lutas sociais”.

Silva defende que o ensino de História deve ser crítico. “Postura crítica não é falar mal de ninguém. É falar reflexivamente sobre o que nós estamos vivendo, sobre o passado, sobre as relações entre o presente e esse passado, sobre ameaças graves para o futuro. Esse ensino crítico está muito ameaçado”, finaliza ele.